É lançada a plataforma "Amazônia - Radar das ONGs"

Publicado em 18/12/2019 por Assessoria de Comunicação

As organizações da sociedade civil que atuam na Amazônia têm sido fundamentais para que os índices de pobreza e desmatamento não fossem ainda maiores.
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E hoje elas vivem dois desafios: aumentar o impacto positivo de soluções e remar contra a maré da desinformação, em um contexto hostil à sua atuação e às políticas ambientais.

Para qualificar esse debate, lançamos "Amazônia – Radar das ONGs", plataforma de conteúdo jornalístico realizada em parceria com instituições de reconhecido trabalho na região: Fundação Amazonas Sustentável, Idesam, Instituto Peabiru e Projeto Saúde & Alegria. Além de reportagens, traz infográfico, mapa interativo, enquete e vídeos, entre outras seções. A plataforma segue aberta a novas adesões de organizações que reconhecem a comunicação de qualidade como estratégica para o desenvolvimento sustentável na maior floresta tropical do mundo.
Entre elas, o projeto "Mel que transforma vidas", conduzido pelo Instituto Peabiru, vem gerando trabalho e renda nas comunidades e ampliando a consciência ambiental, como podemos ver a seguir:
Multiplicação de colmeias ajuda na renda familiar e abastece um novo negócio criado para aumentar a escala dos benefícios no campo ambiental e social.
Além da economia, a ONG mobiliza municípios para a melhoria de indicadores na temática da criança e adolescente
Na saída de Belém (PA), a rodovia PA 242 leva ao município de Curuçá, na faixa onde o Oceano Atlântico beija a Amazônia. No percurso, pastagens – muitas abandonadas – e extensos plantios de coqueiro e dendê ocupam o lugar da antiga floresta que agora se tenta, ao menos em parte, recuperar. No ponto final, um litoral de robustos manguezais e praias visitadas por patos selvagens em busca de uma alimentação farta. A abundância de caranguejos e mariscos é apenas uma amostra das riquezas naturais. Um dos berços do carimbó, tradicional ritmo da cultura paraense, a região tem hoje um novo ativo capaz de adoçar paladares, e também vidas: as abelhas nativas sem ferrão.
Nos arredores da cidade, a moradora Marussia Baena, 64 anos, abre a porteira do sítio e convida, orgulhosa, para visitar o pomar. “Aqui tem o cupuaçu; à direita, o urucu-amarelo e mais à frente o açaizal, perto do cacau, do café e da canela para fazer chá”, diz a anfitriã, com um certo ar de suspense, pois a atração principal está ainda por vir. Mais uns passos e, no fundo do quintal cheio de árvores ao redor, chega-se a um “paliteiro” de estacas que sustentam 93 caixas de madeira, 40 com abelhas – implantadas com apoio do Instituto Peabiru.
Com uma seringa sem agulha, a produtora retira um pouco do mel da colmeia e dá de provar, como um elixir amazônico sem igual. Com assistência técnica, a produção cresceu rapidamente e atingiu 30 quilos, em 2018. No entanto, no caso de Baena, mais que a renda com a venda do mel, o benefício está na conservação ambiental: “o sonho é recuperar com agrofloresta a terra degradada por queimada e roçado no tempo dos meus avós”, revela a aposentada, que hoje faz curso técnico em meio ambiente. E conhece a lógica da natureza: de um lado, as árvores dependem da polinização por abelhas para frutificar; de outro, as abelhas precisam da floresta em pé para se alimentar e se multiplicar.
“Quando terminei de montar o meliponário, as árvores frutíferas estavam bombando, principalmente a pitangueira e o pé de urucum”, conta a produtora. Além das abelhas, o esterco das galinhas e a água rica em nutrientes do tanque de criação de peixes servem à recuperação da floresta no sítio.
Não longe, à margem da estrada para Marapanim (PA), Maria Deusuíte Santos, a dona Deusa, mantém 200 colmeias e quer chegar a 400, com apoio do marido e do filho. “O mel ajuda na renda e na dieta mais saudável, no lugar do açúcar”, observa a produtora, que iniciou a atividade com apenas duas caixas como alternativa à mandioca, feijão e melancia. Hoje, no lugar da roça, há árvores de bacuri, murici, cajueiro – frequentados, é claro, pelas abelhas.
Em 2018, a família produziu 100 quilos e faturou R$ 3 mil, aproveitando o movimento de turistas na estrada. Estudantes das escolas locais chegam para ver a novidade e fazer selfies, e é raro não cair na tentação do pão de mel e outras iguarias que dona Deusa prepara com o que tem no quintal, graças às abelhas. O dinheiro a mais é guardado como poupança ou investido em melhorias da casa que aumentam a autoestima.
Além de Curuçá, com foco maior na agricultura familiar, outros seis municípios amazônicos integram o Programa de Abelhas da Amazônia, em diferentes realidades produtivas. No Oiapoque (AP) e Curralinho, na Ilha de Marajó (PA), por exemplo, as colmeias estão associadas ao extrativismo, como do açaí. No total, são 5 mil caixas, com produção de duas toneladas de mel na safra de 2019, um terço maior que no ano anterior.
Foram 12 anos de trabalho para desenvolver a produção e obter o registro SIF como produto de origem animal, necessário à comercialização. A iniciativa teve apoio do BNDES/Fundo Amazônia e depois recebeu recursos do fundo de investimento da Conexsus para viabilizar o modelo comercial. A safra é comprada dos produtores rurais pela Peabiru Produtos da Floresta – empresa criada especialmente para fazer a ponte com o mercado, encaminhando o mel a uma fábrica de Belém para beneficiamento e envaze das embalagens antes da venda final.
“A estratégia é comercializar em empórios e por meio de compras institucionais baseadas na aquisição da produção local junto à agricultura familiar”, revela Hermógenes Sá, coordenador do programa Abelhas da Amazônia. A expectativa é de repetir o sucesso do mel em outras cadeias, como a da farinha.
O plano retrata uma nova etapa na história do Instituto Peabiru (do tupi, “caminho forrado de folhas”), criado em 1998, em São Paulo, com ênfase no trabalho socioambiental em parceria com grandes empresas, principalmente na área de educação ambiental, na Mata Atlântica. Seis anos depois, transferido para Belém, passou a contribuir de perto com as questões da Amazônia. Logo de início, a instituição foi contratada pela Natura para o trabalho junto a comunidades fornecedoras de um ativo natural para cosmético, a priprioca, e desde então as demandas socioambientais se multiplicaram. E exigiram dinamismo para adaptação aos novos tempos.
“O mel é fio condutor de transformações”, ressalta João Meirelles Filho, diretor da ONG e escritor dedicado aos temas amazônicos. Além de saudável, o produto canaliza benefícios à conservação da biodiversidade, à melhoria da produção de frutas e outros produtos agroflorestais e à geração de renda. Tem contribuído no debate sobre a questão de gênero e se apresenta como oportunidade para empresas, nas ações de responsabilidade corporativa.

Assista ao vídeo do projeto:

AÇÕES PARA GARANTIA DE DIREITOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Ao integrar a Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e ajudar na construção de negócios ambientais e sociais no Pará, o Peabiru aposta no empreendedorismo de impacto positivo para a sociedade, conjugando forças junto às empresas de maior porte para avanços de escala nas cadeias produtivas, visando o desenvolvimento sustentável.
“Os produtores estão percebendo o nascer de uma nova economia”, completa Meirelles. O desafio na agricultura familiar e nas cadeias de valor da sociobiodiversidade inclui fortalecer comunidades para a autodeterminação. Na agenda de protagonismo social, o Peabiru atua desde 2013 em toda a Amazônia Legal com atividades de apoio ao Selo Unicef, instituído pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância para estimular e reconhecer avanços quanto à garantia dos direitos de crianças e adolescentes nos municípios.
“O trabalho prevê estratégias de comunicação e mobilização social, formação de agentes públicos e monitoramento de 11 indicadores de educação, saúde e assistência social para se chegar a melhorias da gestão municipal neste campo, em quatro anos”, explica Cláudio Melo, gerente do projeto.
Atualmente, 194 municípios da Amazônia têm o reconhecimento do selo. De 2011 a 2014, a taxa de mortalidade infantil caiu 9,8% nessas localidades, superior à média brasileira de redução. E o acesso ao pré-natal aumentou 19,8 %, contra 5,4% nos demais municípios. Na educação, a evasão escolar tem diminuído. Mas a violência, que eleva a mortalidade de crianças e adolescentes de 10 a 19 anos por causas externas, permanece um desafio.
“Em parceria com os municípios, jovens atuam como agentes multiplicadores em temáticas como gravidez na adolescência e mobilização para a cidadania, com mutirões para emissão de título de eleitor, por exemplo”, observa Melo.